Agropolítica
Câmara limita uso de nomes de leite e carne em produtos vegetais
Projeto afeta bebidas e alimentos plant-based e agora segue para análise do Senado
Redação Agro Estadão
04/03/2026 - 11:25

A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira, 3, um projeto de lei que muda a forma como produtos vegetais poderão ser apresentados ao consumidor quando fizerem referência a itens tradicionalmente associados a leite e carne. O PL 10.556/2018, de autoria da senadora Tereza Cristina (PP-MS), foi aprovado em Plenário e segue agora para análise do Senado, com um substitutivo relatado pelo deputado Rafael Simões (União-MG).
Na prática, o texto proíbe o uso de denominações de produtos de origem animal em itens de origem vegetal, com o argumento de evitar confusão na compra. Fica restrito o uso de expressões e palavras como queijo, manteiga, leite condensado, requeijão e creme de leite. E ainda bife, hambúrguer, linguiça e salsicha. A restrição vale para embalagens, rótulos, cardápios e publicidade, entre outros.
O relator sustentou que estratégias de marketing vêm aproximando produtos “por aparência e linguagem”, apesar de diferenças de composição e perfil nutricional. “O consumidor não pode ser levado a acreditar que está levando um produto lácteo ou de carne quando, na verdade, se trata de um similar, com composição distinta. Informação clara é o que garante uma relação comercial segura e confiável”, afirmou Simões durante a tramitação.
O que muda na rotulagem e na comunicação
O projeto determina que estabelecimentos do ramo de alimentação e fabricantes que comercializem produtos lácteos, similares aos lácteos, produtos de carne ou similares à carne, deverão exibir informação clara, ostensiva e em língua portuguesa sobre a natureza do que está sendo vendido.
Além disso, o texto veda a apresentação de vocábulos, sinais, denominações, símbolos, emblemas, ilustrações ou quaisquer representações gráficas que tornem a informação enganosa quanto à natureza, composição, origem e outros dados do produto.
Há, porém, uma exceção: será permitido o uso de nome “comum ou usual” consagrado pelo uso corrente e tradicional, desde que já incorporado aos hábitos alimentares e que não induza o consumidor a erro sobre natureza, origem ou finalidade. O texto final não cita exemplos que entram nesse grupo.
Posição da Frente Parlamentar da Agropecuária e do setor de lácteos
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) orientou voto favorável, mas fez ponderações técnicas. O presidente da bancada, deputado Pedro Lupion (PP-PR), defendeu que a proteção ao consumidor precisa caminhar com previsibilidade regulatória para quem produz e industrializa.
“Somos favoráveis à clareza na rotulagem e à proteção do consumidor, mas é indispensável que a legislação esteja alinhada às normas sanitárias já consolidadas. A harmonização com o RIISPOA reforça a segurança jurídica e traz previsibilidade para quem produz, industrializa e consome”, disse Lupion.
Do lado da cadeia do leite, a Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite) comemorou a aprovação e classificou a decisão como uma vitória do setor. Em nota, a entidade disse que o PL foi “idealizado e solicitado” pela própria Abraleite e que representa “uma vitória da verdade na informação, do respeito ao consumidor e, principalmente, dos produtores de leite do Brasil”.
Indústria de proteínas alternativas vê risco à inovação
O The Good Food Institute (GFI), organização global sem fins lucrativos focada em inovação no segmento de proteínas alternativas, contestou o argumento de que o consumidor estaria sendo enganado por denominações inspiradas em produtos de origem animal.
Em nota oficial, a entidade afirmou que “pesquisas no Brasil e no exterior mostram que 97% dos consumidores sabem exatamente o que estão comprando”, e que a escolha costuma ser consciente, motivada por saúde, valores pessoais ou preocupação ambiental.
O GFI também alertou para o impacto regulatório: segundo a organização, instituições como Embrapa, Anvisa e o Ministério da Agricultura já se posicionaram tecnicamente contra esse tipo de restrição, sob o entendimento de que a medida pode prejudicar inovação e pesquisas em andamento.
A entidade menciona ainda que há processos regulatórios em curso na Anvisa e no Ministério da Agricultura e que, com a aprovação do projeto, esse trabalho pode perder efeito. Para o GFI, a proposta pode significar “retrocesso para a inovação em alimentos no Brasil” e reduzir oportunidades de agregação de valor a cadeias do agro como soja, feijão e castanhas.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Agropolítica
1
Ministério da Pesca cria grupo para discutir Registro Geral da Atividade Pesqueira
2
O chapéu vai ser proibido no campo? Entenda essa polêmica
3
Novo projeto no Congresso busca evitar colapso da cadeia do leite; entenda
4
China “nunca” disse que não habilitaria novos frigoríficos, diz encarregado de Comércio Internacional do Mapa
5
Ministério cancela mais de 76 mil licenças de pescadores
6
Governo de Goiás envia projeto para encerrar cobrança da taxa do agro
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Agropolítica
Governo de São Paulo extingue cargos na área de pesquisa em agricultura
Secretaria diz que medida integra reforma administrativa do Estado e que cargos já estavam vagos e que não haverá exoneração
Agropolítica
Câmara aprova urgência para projeto que moderniza o seguro rural
Proposta, de autoria da ex-ministra da Agricultura e senadora Tereza Cristina, visa ampliar a definição de prejuízos cobertos pelo seguro rural
Agropolítica
Projeto propõe ampliar proteção da propriedade rural contra penhora por dívidas
A proposta ainda aguarda encaminhamento para análise nas comissões do Senado
Agropolítica
Alckmin vê acordo Mercosul-UE em vigor no Brasil até o fim de maio
Texto do decreto das salvaguardas brasileiras já está na Casa Civil e deve sair antes de aprovação no Senado
Agropolítica
Vai à sanção projeto que permite uso no Pronaf de até R$ 500 milhões do Fundo Garantidor
Proposta já havia passado pelo Senado e foi aprovada pela Câmara nesta quinta-feira, 26;
Agropolítica
México e Filipinas abrem mercados para produtos brasileiros
Brasil chega a 14 novos mercados neste ano
Agropolítica
Governo libera mais R$ 73,6 milhões para ajudar arrozeiros
Desde 2024, foram mais de R$ 716 milhões em medidas de apoio ao setor de arroz
Agropolítica
Coalizão dos Biocombustíveis quer SAF e diesel verde como prioridade em Fundo de Transição Energética
Contribuições setoriais para o mapa da transição energética do Brasil, será entregue ao governo federal na segunda semana de março